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Mitologia Sumeriana 2009/09/07

Posted by gsavix in civilização.
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O País

Sumer, Sumere ou Suméria era a longa faixa de terra da Mesopotâmia (palavra grega que significa “entre rios”, isto é, o Tigre e o Eufrates) que terminava no Golfo Pérsico. Muito menos isolada que o Egito, essa planície era a passagem entre o Mediterrâneo e o Oriente. A Mesopotâmia antiga permaneceu desconhecida, praticamente, até o fim do século XIX; as escavações arqueológicas a redescobriram.
Toda a terra que medeia entre os rios, Mesopotâmia em sentido estrito, é formada pelas aluviões do Tigre e Eufrates, e sua parte meridional, muito baixa, é aberta sobre o mar. Os dois rios não desempenham a mesma função que o Nilo no Egito: suas cheias são brutais, desiguais, e quando transbordam causam verdadeiras catástrofes.
A zona mais próxima ao Golfo Pérsico foi habitada por povos de origem ainda desconhecida, que se estabeleceram no vale do Eufrates, provavelmente no início do V milênio a.C. Esse povo criou uma das mais antigas civilizações históricas. A sua história prolonga-se até todo o III milênio e só desapareceu quando Sumer foi conquistada pelos elamitas e semitas amorreus.
À grande região da Mesopotâmia a Bíblia dava o nome de Aram-Nacharam, “Síria entre rios”; hoje compreende o Iraque, e Bagdá é sua capital. confina ao N. com a Turquia, o O. com a Síria francesa e a Transjordânia, ao S. com a Arábia Saudita e a L. com a Pérsia, atual Irã. Os rios Tigre e Eufrates, que banham toda essa região, correm do noroeste para sueste; reúnem-se pouco acima da autual Basra, e deságuam no Golfo Pérsico. A Assíria, velho país de Assur, estendia-se ao N., ao longo do Tigre; Babilônia, a antiga Sumer, e Acádia, corriam para o S., entre o Eufrates e o Tigre, descendo até o Golfo Pérsico.

A Mitologia Sumeriana

Os mitos de Sumer são cosmológicos e procuram investigar a origem do povo, da raça, da sociedade. É mitologia subjetiva: representa aquele estágio em que a reflexão humana, pela primeira vez, tomou conhecimento dos fenômenos psíquicos, internos, e do mundo exterior em função do Homem como ser racional; é sem dúvida, a mais antiga “reflexão humana” que conhecemos. Os elementos que a mitologia de Sumer utiliza são terrenos e familiais; o mito, sob plano cosmológico, quer, apenas, por em evidência os caracteres que formaram a base da sociedade sumeriana. Procura explicar a diversidade entre o estável e o instável, entre o que é duradouro ao lado do que é fugaz ou efêmero, entre o que é seco (os desertos) e o que é úmido (as terras férteis e os grandes terrenos paludosos,
talude (latin) = pântano[palude = pantâno latin] vestígios, ainda, do dilúvio, paisagem intimamente ligada às concepções do povo), entre a terra firme e os grandes rios selvagens que correm eternamente; depois vem o mar, último talvez, em ordem cronoriano, o mar figura misteriosa e temível; ele representa a eterna luta entre a água (doce ou salgada) e a terra firme. Por essa razão, como não poderia deixar de ser, os mitos de Sumer preocupavam-se com os vegetais, ao passo que ignoram a descoberta e o uso dos metais.
O panteão sumeriano é, portanto o reflexo das famílias organizadas em grupo social. Era imenso; é verdade que a maioria representava pequenos deuses locais que foram, ou assimilados ou esquecidos; os grandes deuses, porém, eram adorados em todas as cidades, ou quase todas; muitos chegaram até a figurar no panteão babilônio. As grandes cidades de Sumer eram independentes, não havia governo central que as unificasse, mas cada uma tinha o seu rei e os seus deuses próprios; estes em outra cidade, eram os mesmos, mas às vezes com nome diverso ou com atributos diferentes.
Segundo a concepção comum a todos os mesopotâmios, os deuses haviam criado os homens para o seu serviço; além de construir templos e oferecer sacrifícios, o homem deveria respeitar leis, das quais as divivindades eram as protetoras e as guardiãs; os deuses, por seu turno, nada deviam ao homem; com a criação haviam esgotado o elemento providencial; não eram obrigados a recompensar o bem; tudo que acontecesse de catastrófico, de mau, ou simplesmente de desagradável, era sinal de que os deuses não estavam satisfeitos com o homem. Usavam os deuses dos demônios para atormentar os homens; contavam-se por legiões, “fantasmas”, “homens da noite”, “os arrebatadores”, “os devoradores de crianças”, etc. Não se sabe precisamente qual o papel representado pelos “gênios bons”. Os mesopotâmios, em geral viviam em perpétuo temor; não conheceram aquela doçura e otimismo que a civilização egípcia cultivou com tanto empenho; e depois da morte, nenhuma esperança lhes sorria. Sua idéia sobre a morte confirma o aspecto severo e terrível da concepção religiosa que aceitavam. Morto o homem, restava-lhe, apenas, uma espécie de espectro, um espírito muito vago, que teria de partir para regiões misteriosas, onde viveria uma vida diminuída, numa eterna penumbra. “Quando os deuses criaram a Humanidade, aos homens atribuíram a morte, mas a vida guardaram para eles mesmos.” Que resta, então, ao homem senão desejar a vida mais longa possível? Uma idade avançada era particular favor dos deuses.

O Panteão Sumeriano

O panteão sumeriano é encabeçado por An, o deus-céu, Enlil, o Senhor-Vento, e uma deusa, Nin-ur-sag, “A Senhora da Montanha”, conhecida, também, sob outros nomes. Enlil passou para o culto da Babilônia; seu nome semita é Bel, que significa “senhor”. Seu domínio era a terra; em Sumer, o principal local de culto de Enlil era Nipur, grande e antiga cidade; já na época arcaica, os reis de Lagash (outra importante cidade de Sumer) o chamavam de “rei dos deuses”; tinha os epítetos de “Sábio” e “Ajuizado”. Enqui, talves o Senhor da Terra, aparece às vezes como filho de Enlil; tinha o domínio das águas, exceto do mar (as águas doces eram chamadas, no seu conjunto, apsu). Nin-tu, Nin-mah ou Aruru eram outros nomes para Nin-ur-sag. Namu era a deusa do mar (pelo menos seu nome se escrevia com o ideograma utilizado para designar “o mar”); Nintura, Utu e Eresquigal completavam o quadro dos “Grandes deuses”, chamados Anunáqui. Os mitos relatam o nome de Ninsiquila, filha de Enqui.

O Mito da “Árvore Cósmica”

O mito da “árvore”, que unia a terra ao céu é, sem dúvida, um dos mais antigos; parece, porém, que desapareceu muito cedo da mitologia sumeriana. A árvore gish-gana do apsu (“O Abismo Primordial”) erguia-se acima de todos os países; é o símbolo do mastro ou viga que une as duas regiões visíveis: Céu-Terra. Se o templo era o símbolo da árvore cósmica, à porta desse erguia-se outro símbolo, uma estaca ou um mastro “que tocava o céu”. O rei de Isin, Ishme-Dágan, chamará o templo de Lagash “O Grande Mastro do País de Sumer”. A expressão e o símbolo desaparecerão com o correr dos séculos, mas perdurará a concepção mitológica de um local sagrado, alhures, em Sumer, que seria o ponto de união entre o Céu (região dos deuses) e a Terra (região dos homens). Em Nipur a cidade santa de Sumer, onde reside Enlil, a grande torre de degraus se chamava Dur-an-qui, “Laço que une o Céu à Terra”, isto é, o lugar que faz comunicar a Terra com o Céu. Na Bíblia nós temos um evidente reflexo dessa concepção; é o trecho onde Jacó sonha com uma escada que, apoiando-se na terra, tocava com o cimo o céu e os anjos de Deus subiam e desciam pela escada (Gênesis, 28:10-22).

Nascimento do Mar, Terra e Céu

A deusa Namu é chamada “A mãe que deu nascimento ao Céu e à Terra”; aliás, ela é designada frequentes vezes como a “Mãe de todos os deuses”e mais especificamente: “A mãe de Enqui”, o Deus responsável pelo mundo no qual vivem os homens.
A criação do cosmos se fez por emanações sucessivas; do Mar primordial nasceram a Terra e os Céus. Os dois elementos, Terra e Céu, “os gêmeos”, no início ainda estavam unidos e se interpenetravam. Enlil os separou, talvez com um sopro, já que seu nome significa “Senhor Vento”.
Há um poema sumeriano que relata como a Enxada (ou Enxadão) foi criada; nesse texto se alude à sucessiva criação do mundo: “O senhor Enlil decidiu produzir o que era útil, / O senhor, cujas decisões são imutáveis,/ Enlil, que fez germinar da terra a semente do país,/ Imaginou separar o Céu da Terra,/ Imaginou separar a Terra do Céu…”.
Outro poema vê nessa separação inicial dos elementos a obra de duas divindades, An e Enlil: “Quando o Céu foi separado da Terra,/ Quando a Terra foi separada do Céu,/ Quando o nome do Homem foi determinado,/ Quando An arrancou o Céu,/ Quando Enlil arrancou a Terra…”.
Há outra tradição que atribui a separação dos elementos primordiais a uma divindade ou Demiurgo.

O Paraíso

Um longo texto sumeriano, conhecido sob o nome de Mito do Paraíso ou Mito de Dilmum, refere o início dos tempos, quando o deus Enqui e sua esposa, “A Virgem Pura”, viviam sozinhos num mundo virgem e cheio de delícias, que se situava em Dilmum, região mítica. Nada existia além do par divino; em Dilmum nascerá não só a água doce e o Sol, mas também a vida. Esse mito parece ter afinidade com o Paraíso Bíblico onde o primeiro casal, Adão e Eva, também vivia no meio de delícias, antes da desobediência.

O Casamento Divino

Enqui, no Paraíso, depois que a água doce tornou férteis as terras, fecundou “A Virgem”, que assumiu então, o nome de “Senhora do País”. Essa deusa era Nintu; logo que ficou grávida e o parto se aproximou, tomou o nome de Nin-hur-sag. O primeiro filho do casal divino era uma deusa, Ninmu; Enlil une-se à Ninmu e gera outra filha, a deusa Nin-curra, da qual terá em seguida outra filha, Utu; e as uniões entre o deus-pai e as filhas prosseguiriam se Nin-hur-sag não aconselhasse a Utu recusar as solicitações do pai, a não ser que dele recebesse, antes, os presentes nupciais, pepinos, maçãs e uvas. Enqui consegue os pepinos, as maçãs e uvas e Utu deve entregar-se aos ardores amorosos do deus; mas o ato não se consuma. Nin-hur-sag utiliza o sêmen de Enqui para criar oito plantas diferentes que o deus vê crescer nos pântanos, sem saber o que significam e para que servem. Contudo, come-as. Nin-hur-sag, então amaldiçoa Enqui e desaparece. A desaparição de Nin-hur-sag consterna os grandes deuses, os Anunáqui, que não sabem como proceder. Apresenta-se, nessa conjuntura, a Raposa, que se oferece para ir buscar Nin-hur-sag, se a recompensa for compensadora. Enlil promete dar-lhe como paga árvores frutíferas e grande glória: todos se referirão à Raposa com grandes elogios. Há muitas lacunas nesse texto mítico; não sabemos portanto, qual o meio que a Raposa usou para reconduzir a deusa. Sabemos porém que Enqui, moribundo, tinha ao seu lado a solícita Nin-hur-sag. O deus indica oito partes do seu corpo; a deusa confessa, que para curá-lo, deu à luz algumas divindades. Enqui determina a sorte dessas divindades; a última delas, En-shag, será o protetor da cidade mítica de Dilmum.

O Dilúvio

A tradição do dilúvio, comum a muitos povos, também o é à civilização sumeriana. Essa narrativa, em forma de epopéia, chegou até nós muito mutilada; mas o mito, na sua essência, é o seguinte: Por razões desconhecidas, pois falta essa parte do poema, a Assembléia dos deuses delibera destruir a Humanidade escolhido para servir de pai às futuras gerações de homens; um deus, então, o adverte da decisão da Assembléia divina. Zi-u-sudra constrói a arca na qual conservará “o sêmem da Humanidade”; fecha-se na arca e começa a chover; a chuva dura sete dias e sete noites; morreram todos os homens, menos o rei Zi-u-sudra, que, após o dilúvio, começa a participar da vida divina; dão-lhe como residência a cidade de Dilmum.

A criação do Homem

Os deuses criaram os homens, já afirmamos, para que eles fizessem o trabalho e desempenhassem as funções que, de outra maneira, teriam de ser executadas pelas próprias divindades. A criação do homem, destarte, é algo de necessário. Encontramos, aqui outra notável semelhança com o relato bíblico, onde o trabalho é uma maldição: “Comerás teu pão com o suor do teu rosto”. Para os sumerianos, os deuses não trabalhavam: os homens trabalhavam por eles; esse dolce far niente fazia com que gozassem plenamente a vida divina, sem trabalhos, o que os distinguia dos humanos.
Diz o mito que os grandes deuses Anunáqui sentiam fome e não podiam comer, sentiam sede e não podiam beber, pois o homem ainda não fora criado. O deus An criara os Anunáqui “sobre a montanha do Céu e da Terra”, mas nenhum desses era capaz de prover, já não se diz a subsistência de todos, mas a sua mesma. Ashnam (a deusa do Grão) ainda não fora criada, Utu (deusa da Tecelagem) tambpouco fora formada, assim como Lahar, o deus do gado. Eles não tinham ainda nome. Isto é o que se chama “Doutrina do nome”, comum também na Babilônia. Resume-se no seguinte princípio fundamental: a coisa só existe quando tiver nome; essa “Doutrina” parece ser também da Bíblia: Quando Deus criou os animais fez que viessem diante de Adão para que este lhes impusesse um nome (Gên. 2:19). Criaram, então os deuses, Ashnam e Lahar: o grão e o gado crescerão juntos, mas os deuses permanecem insatisfeitos, pois não há quem cuide do gado e recolha o grão. Então o homem recebe o sopro vital. Concluiu-se o Cosmos. A obra da Criação está completa. Deduz-se desse mito, que a única função do Homem é trabalhar para os deuses.

São Paulo, 28 de agosto de 2009. Biblioteca Municipal Nuto Santana, Dicionário das Mitologias Européias e Orientais, Tassilo Orpheu Spaldin, Cultrix / Mec, São Paulo, 1a edição, 1973, p. 115

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