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Como podemos resolver nossos problemas mais complexos de forma pacífica? 2009/02/06

Posted by gsavix in Memorando.
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Palestra de Adam Kahane

São Paulo, 4 de junho de 2008.
Nos últimos quinze anos, tenho concentrado toda a minha atenção na resposta a uma pergunta: Como podemos resolver nossos problemas mais complexos de forma pacífica? Não é difícil tentarmos resolver nossos problemas de forma violenta, usando dinheiro, autoridade ou armas para fazermos com que as coisas fiquem da maneira que nós queremos. Também não é difícil sermos pacíficos; deixando, contudo, as coisas exatamente como estão. Como podemos, então, trabalhar conjuntamente para co-criar novas realidades sociais?

Há alguns anos, passei por uma cirurgia em um dente. No dia seguinte, ao entrar no avião, bati a cabeça contra o compartimento de bagagens, o que me fez sentir uma dor aguda no maxilar. Voltei ao consultório do dentista e reclamei com a enfermeira sobre a dor pungente que sentia ao bater a mão contra a cabeça. Ela me olhou calmamente e me deu o conselho mais lógico que já recebi “Se dói”, disse ela, “então não faça mais isso”.
A maneira mais comum de tentarmos resolver problemas complexos dói, portanto deveríamos parar com isso. Nos últimos quinze anos, tenho trabalhado de uma forma incomum de resolver problemas complexos. Iniciei esta jornada de forma um tanto quanto inesperada. No início da década de 90, eu estava trabalhando em Londres, no departamento de planejamento estratégico da Royal Dutch Shell, empresa mundial de petróleo. Um dia recebemos uma ligação de um grupo de ativistas de esquerda da África do Sul que desejavam usar a metodologia de planejamento estratégico da Shell para fazer planos para o período de transição de seu país após o apartheid.
Também queriam saber se alguém da Shell poderia lhes fornecer conselhos metodológicos. Encontrei-me então atuando como facilitador de uma equipe de líderes sul africanos: negros e brancos, de esquerda e de direita, da oposição e da elite governante, da política, de empresas e da sociedade civil. Todos eles falando sobre o que estava acontecendo e o que fariam a respeito.

Testemunhei, na África do Sul, que é possível para um grupo altamente diversificado de líderes de
todo um sistema social, até mesmo aqueles que estiveram literalmente em guerra uns com os
outros, engajar-se na co-criação de um futuro melhor. Nos últimos quinze anos, juntamente com meus colegas, tenho seguindo esta rotina, iniciada na África do Sul. Nossa abordagem básica tem sido o trabalho com equipes de líderes de um dado sistema social, que têm o compromisso e a capacidade de agir para mudar esse sistema, para construir um entendimento compartilhado de sua realidade atual, do seu próprio papel em tal realidade e do que podem e irão fazer para co-criar uma nova realidade. Temos trabalhado desta forma com todos os tipos de equipes, com uma gama de desafios complexos, em todas as partes do mundo: na Guatemala, para implementar os acordos de paz; na Índia, para reduzir a subnutrição infantil; nos Estados Unidos, para revitalizar áreas urbanas e rurais; no Canadá, para mudar para uma economia de baixo carbono; por toda a Europa e Américas, fazendo com que sistemas de alimentação sejam mais sustentáveis e na África do Sul, para responder aos vários impactos sociais da epidemia do HIV/AIDS. Nos últimos quinze anos, tenho dado várias cabeçadas. Mas, se você se concentra em uma questão pelo tempo suficiente, uma resposta então começará a surgir na sua mente. Aqui está o início da resposta que surgiu para mim: se quisermos ser capazes de resolver nossos problemas mais
complexos pacificamente, temos que nos tornar bilíngües. Temos que aprender a falar duas línguas que não são traduzíveis de uma para a outra. Temos que aprender a falar a língua do poder e a língua do amor.

Esta reposta requer um pouco de explicação, pois as palavras poder e amor são definidas por muitas pessoas diferentes, de formas muito diferentes. Estou usando duas definições em particular, sugeridas por um teólogo americano de origem alemã, chamado Paul Tillich, que acredito ressoam profundamente minha própria experiência.

Tillich define poder como “a força de tudo que vive para realizar a si próprio, com crescente intensidade e amplitude”. Portanto, poder, neste sentido, é a força de realizar um trabalho, de alcançar um propósito, de crescer. Passei a maior parte da minha carreira no mundo dos negócios, que é dominado por esta linguagem do poder: pela força ativa e empreendedora dos indivíduos e das organizações para terem seus trabalhos realizados, seus objetivos alcançados e crescerem. E, há quinze anos, quando me envolvi no primeiro projeto na África do Sul, o que mais me impressionou a respeitos dos sul-africanos foi a energia empreendedora para realizarem seu trabalho, para alcançarem seus objetivos e para crescerem dentro do que a conjuntura exigia deles. Tillich define amor como “a força em direção à unidade do que está separado”. Portanto, amor, neste sentido, é a força de religar aquilo que é inteiro, que é único, mas que parece partido em fragmentos. Testemunhei esta força em direção à unidade, afastando-se do apartheid na África do Sul; pois afinal a palavra apartheid em africano significa separação. Testemunhei, também, esta mesma força em todo o trabalho que fiz na América Latina, Colômbia, Argentina, Paraguai e especialmente na Guatemala, trabalhando com equipes de líderes que estão tentando unir-se para curar as feridas causadas por décadas de polarização, repressão e guerra. Há algumas semanas, tive uma experiência na qual testemunhei uma expressão muito nítida dos fenômenos de poder e amor. Estava em um workshop de um projeto que reúne líderes de todas as partes da sociedade israelense judia; uma sociedade profundamente e perigosamente dividida. Os líderes eram de esquerda e de direita, religiosos e laicos, políticos, empresários, rabinos e ativistas, todos tentando desenvolver respostas para uma pergunta essencial: que tipo de sociedade podemos imaginar, que levaria nossos descendentes a terem orgulho de fazerem parte e na qual poderíamos viver de forma amistosa com nossos vizinhos que não são judeus?
De um lado, a sociedade israelense judia exemplifica o fenômeno do poder: a força de um povo ressurgindo de sua quase extinção provocada pelo Holocausto, para perceber a si própria intensiva e amplamente, e os conflitos que esta força inevitavelmente produz. E este mesmo fenômeno esteve presente no próprio workshop, com cada um dos participantes tomado pela força de realizar-se a si próprio, de ser verdadeiro consigo mesmo, de argumentar seu ponto de vista com paixão e os argumentos complexos que esta força inevitavelmente produz. Porém, houve um segundo fenômeno também presente no workshop. Uma certa manhã, tivemos um diálogo longo e muito sincero sobre inclusão e exclusão da sociedade israelense. Para mim, parecia que todas as amadas da sociedade sentiam-se excluídas: a religiosa, a laica, os imigrantes, os árabes, os russos e os etíopes. Pude ouvir a dor nas vozes das pessoas, mas não pude compreender o motivo pelo qual esta conversa foi tão importante para o grupo. Então, de repente, percebi o que não estava ali. É como a piada do Sherlock Holmes e o Watson em um acampamento. No meio da noite, Holmes acorda o Watson e pergunta: “Watson, o que você vê?”. O Watson está acostumado a estes testes de suas habilidades de observação e começa a responder, “Vejo as estrelas brilhando, a lua crescente e as nuvens que passam”, mas Holmes o interrompe e diz: “Não Watson, seu burro! Alguém roubou a barraca!”. A dor naquela sala era a dor do desejo por algo que não estava ali: um sentimento de inclusão, de ligação, de união. Este é o fenômeno do amor: a força em direção à unidade do que está separado. A dor naquela sala era o desejo dos israelenses judeus de estarem unidos uns aos outros e também aos seus vizinhos que não eram judeus.

Até este momento, falei sobre poder e amor de forma neutra e direta. Mas naturalmente nossa situação não é de forma alguma neutra ou direta. Isto acontece porque ambos, poder e amor, têm duas faces: uma criadora e outra degenerativa e obscura. A feminista Paula Melchiori me chamou a atenção ao fato de que podemos, ver claramente estes dois conjuntos de duas faces se observarmos os papéis tradicionais dos gêneros. O pai, que incorpora o poder masculino, sai ao mundo para realizar seu trabalho. A face criadora deste poder é a costrução de algo de valor no mundo; a criação de uma história. A face degenerativa de seu poder é que ele pode ficar tão concentrado em seu trabalho, que esquece sua ligação com as outras pessoas e pode tornar-se um robô ou mesmo um tirano. Por outro lado, a mãe, incorporando o amor feminino, fica em casa para criar os filhos,
renunciando sua capacidade de criar história. A face criadora de seu amor é que ela literalmente dá sua vida ao filho. A face degenerativa de seu amor é que ela pode ficar tão concentrada em seu filho que bloqueia sua capacidade de crescer e realizar-se. Portanto, precisamos ser bilíngües porque poder e amor são complementares. Amor é o que torna o poder criador ao invés de degenerativo e poder é o que torna o amor criador ao invés de degenerativo. O aluno mais famoso de Paul Tillich foi o líder americano dos direitos civis Martin Luther King Jr. Em um discurso de King feito seis anos antes de ser assassinado, ele falou diretamente sobre esta
complementaridade fundamental. “Poder sem amor”, disse ele: “é descuidado e abusivo; amor sem poder é sentimental e anêmico. Este conflito, entre poder imoral e moralidade sem poder, constitui a maior crise de nosso tempo”.
Minha própria experiência apóia fortemente a análise de King. Poder sem amor é descuidado e abusivo. Se eu agir de forma a me realizar, sem reconhecer que você e eu somos um só, na melhor das hipóteses, o resultado será insensível e, na pior das hipóteses, opressivo ou mesmo genocida. Amor sem poder é sentimental e anêmico. Se reconheço nossa unicidade, mas não mudo minhas ações para estarem de acordo com este reconhecimento, então o resultado que produzirei será, na melhor das hipóteses, inútil e, na pior das hipóteses, um reforço inconsciente da situação atual. Não é fácil trabalhar com poder e amor juntos. Um não é o oposto do outro, mas também não são a mesma coisa. Eles estão em constante tensão, fora de equilíbrio, instáveis. Tive a experiência de ser descuidado e abusivo em dias pares; sentimental e anêmico em dias ímpares. O psicólogo junguiano Roberto Johnson disse: “Provavelmente, o par de opostos mais problemático de se (que podemos tentar) reconciliar é o amor e o poder. Nosso mundo moderno está despedaçado por esta dicotomia e muito mais fracassos do que sucessos são encontrados na tentativa de reconciliá-los.” Um amigo franco-canadense me disse uma vez que sua experiência como bilíngüe, o que literalmente significa falar dois idiomas, foi na verdade a de ser bi-cefálico, de ter dois cérebros. Sempre compreendi o que ele falou de forma metafórica, até há alguns dias quando me deparei com um livro incrível da neuroanatomista Jill Bolte Taylor. Há dez anos Taylor teve um derrame
cerebral, perdendo completamente o funcionamento do hemisfério esquerdo de seu cérebro. Por três semanas, ele teve a experiência de ter apenas o funcionamento do hemisfério direito. Aqui está o que ela relata: “Os dois hemisférios…processam informações de forma diferente, cada um pensa em coisas diferentes, preocupa-se com coisas diferentes, e ouso dizer até que possuem personalidades diferentes. O hemisfério esquerdo é aquela voz que diz “Eu sou. Eu sou”. E tão logo meu hemisfério esquerdo diz “Eu sou”, acabo ficando separada.” Então, na minha linguagem, o hemisfério esquerdo é o cérebro da auto-realização, do poder. Taylor continua a relatar: “O hemisfério direito diz: “Somos seres de energia ligados uns aos outros…como uma família humana…somos perfeitos. Somos um só e somos lindos”. Então na minha linguagem, o hemisfério direito é o cérebro da totalidade, do amor. Precisamos aprender a sermos bi-cefálicos e bilíngües. Precisamos aprender a falar tanto a língua do amor como a língua do poder. Poder e amor não são a mesma coisa e nem opostos. Assim como
nossa natureza masculina e feminina, ou nossos hemisférios esquerdo e direito, eles existem em áreas diferentes; um complementa o outro. Se pudermos nos tornar mais bilíngües, seremos então mais capazes de resolver nossos problemas mais complexos de forma pacífica.

transcrito do site http://www.solonline.org.br

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